Os argumentos antiembináricos
Em muitas das instâncias onde foram propostos/discutidos termos de atração voltados a atração por pessoas não-binárias (de forma que não se resume a “atração sem que o gênero importe”), e, especialmente, termos específicos ou abertos a homens e/ou mulheres com atração por identidades não-binárias, há a reação de invalidar tais possibilidades. Os motivos para isto tendem a ser:
- Como vivemos em uma sociedade exorsexista, ninguém é capaz de sentir atração específica por alguém sem categorizar a pessoa como homem ou mulher. (Mentira: Oltiel, que é torensexual, tem textos bastante explicativos sobre o assunto, que incluem ao menos Atração por pessoas não-binárias: perspectivas e possibilidades para além do binário e Sim, minha sexualidade mudou.)
- Termos para orientações que não são imediatamente reconhecidos por uma pessoa leiga e sem vontade de ir pesquisar são inúteis. (Não. Se alguém se recusa a usar um termo por “não ser conhecido” ou “conhecer muita gente que experiencia isso sem se rotular”, isso é uma questão pessoal que não invalida a existência de uma palavra para descrever o fenômeno.)
- Só pessoas que enxergam corpos cisdissidentes como fetiches se prestariam a reivindicar atração por pessoas não-binárias. Dentro disto, há as pessoas que acreditam que nem pessoas não-binárias conseguem sentir “atração verdadeira” por não-binaridade e estão apenas fetichizando outras pessoas não-binárias, e as pessoas que acreditam que só pessoas não-binárias (e, talvez, pessoas trans em geral) são capazes de compreender a não-binaridade de forma profunda o suficiente para serem capazes de sentir atração primária ou exclusiva por pessoas não-binárias.
Este último argumento tem alguma base na realidade: a fetichização de pessoas trans. As instâncias mais antigas dele talvez sejam as problematizações do termo skolio/cétero, especialmente em relação a pessoas cis adotando o termo. A questão seria uma presunção de que pessoas cis só conseguiriam pensar em uma pessoa como não-binária em termos de expressão de gênero ou corpo, que é o que pessoas que não desconstruiram o próprio cissexismo tendem a fazer, mesmo que a não-binaridade seja completamente diversa tanto em termos de identidade de gênero quanto de corporalidade.
Eu nunca vi nenhum relato de uma pessoa não-binária ser tratada como alguém com uma obrigação de ser neutra/andrógina/etc. para fins de ser atraente para ume fetichista. Porém, o termo não-binárie só passou a ser reivindicado a partir de 2010, e há um histórico longo de mulheres e homens trans serem fetichizades por terem expressões de gênero e/ou características de transição corporal que pessoas cissexistas consideram “contrárias” às suas genitálias e/ou outras características sexuais.
Eu argumentaria que, há 10-15 anos atrás, a presunção de que chasers (pessoas cis com mentalidade cissexista que vão atrás de relacionamentos com pessoas trans por uma presunção de como seus corpos são) eventualmente se disfarçariam de pessoas simplesmente atraídas por não-binaridade seria razoável. Porém, estamos em 2026: a não-binaridade já tem uma visibilidade muito maior, tanto na política quanto na mídia. Termos como xenogênero, homem não-binárie, transfeminine, demigênero, aporagênero e gênero-vácuo já possuem mais de uma década de uso, e portanto também já há vários relatos pessoais de como pessoas chegaram na conclusão de pertencer a tais identidades. E eu ainda não achei as tais pessoas que se dizem atraídas por gêneros não-binários para disfarçar perspectivas cissexistas.
Mas o que foi que eu achei, então?
Pessoas em relacionamentos méstricos sem atração por não-binaridade
Vejo muito mais relatos de pessoas querendo saber o que fazer em seus relacionamentos envolvendo uma pessoa binária gay/lésbica/hétero e uma pessoa não-binária do que pessoas binárias reivindicando a capacidade de sentir atração por pessoas não-binárias de forma geral.
Tais situações aparecem em diferentes formatos, como, por exemplo:
- Duas pessoas estão num relacionamento faz tempo. Uma das pessoas se descobre não-binária e a outra não se via como atraída por múltiplos gêneros. Uma das pessoas no relacionamento pede ajuda com a situação. Discussões incluem: a pessoa binária é obrigada a usar outro termo para sua orientação para manter o relacionamento? A pessoa não-binária deveria aceitar um relacionamento com alguém que só se diz atraída por um gênero que não lhe contempla?
- Uma pessoa binária sai com uma pessoa não-binária que não passou por processos de transição física, e, para manter o interesse da pessoa não-binária, passa a dizer que sente atração por múltiplos gêneros. Porém, a pessoa binária ainda só demonstra atração por pessoas cis de um gênero binário e por aquela pessoa não-binária, ou, ocasionalmente, por outras pessoas não-binárias com o mesmo tipo de aparência. Muitas vezes, após o relacionamento com a pessoa não-binária não dar certo, a pessoa binária volta a dizer que só sente atração por homens ou por mulheres.
- Uma pessoa não-binária que não é aberta sobre ser não-binária para outras pessoas começa a ser alvo do interesse de uma pessoa que disse só ser atraída por homens ou por mulheres. A discussão tende a ser em torno de qual estágio do relacionamento a pessoa não-binária deve se abrir sobre isso, e o quão provável é que a pessoa perca atração quando a pessoa se abrir.
- Uma pessoa não-binária esteve em um relacionamento com uma pessoa binária por um longo tempo. A pessoa binária passou a se dizer bissexual (há outras possibilidades, mas em geral o pessoal escolhe a orientação bissexual por ser mais comum) para se adequar ao fato de sentir atração pela pessoa não-binária, mas não demonstrou atração por outras pessoas não-binárias ou tanto por homens quanto por mulheres. A pessoa não-binária quer transicionar, seja fisicamente, seja legalmente, seja de outra forma, mas a pessoa binária diz que não será mais capaz de sentir atração pela pessoa não-binária caso faça isso, e que terminaria o relacionamento se isso acontecesse.
- Uma pessoa não-binária que é parcialmente homem e/ou mulher questiona se entra na atração de uma pessoa que só diz sentir atração por um dos gêneros binários. Esta situação pode ser somada a qualquer uma das situações acima. Discussões muitas vezes vão para um lado de “se você é mulher/homem, você entra na atração por tal gênero e ponto”, mas, ao meu ver, o conforto com isso vai depender muito de pessoa para pessoa.
Alternativamente, mesmo sem haver relação com pessoas atraídas somente por um gênero, há a situação de pessoas não-binárias se juntarem a grupos bissexuais ou pansexuais para achar pessoas com a mesma experiência que elas e que podem sentir atração por elas só para se depararem com pessoas cissexistas que só afirmam ser possível atração por mulheres e por homens. (Pois é, há pessoas pansexuais que acham que sua atração só cobre “mulheres cis, mulheres trans, homens cis e homens trans”, como se fossem gêneros diferentes.)
Todas estas histórias têm algo em comum, a priorização da atração por gêneros binários. Em geral, pessoas cissexistas só admitem “atração por pessoas não-binárias” para apaziguar sues parceires, ou nem isso.
Não me entendam mal: como já expliquei lá em cima, é possível ter atração por identidades não-binárias. E também acho possível que, desde que alguém conheça e entenda pessoas não-binárias como não-binárias - e não apenas como “mulheres ou homens com rótulos diferentes” - é possível alguém identificar atração por algumas ou mesmo todas as identidades não-binárias, mesmo que a pessoa não seja não-binária. Dito isso, é muito mais comum que pessoas capazes de atração por pessoas não-binárias pensem em si mesmas como atraídas por todos os gêneros ou como atraídas por todos os gêneros menos homens ou mulheres, e não como pessoas que especificamente sentem atração por identidades não-binárias.
É até possível que pessoas não-binárias sejam as únicas com coragem de dizer que sentem atração por identidades não-binárias específicas porque as pessoas de fora desta comunidade são desencorajadas de fazer isso, como mencionei no início do texto. Pessoas não-binárias já usam “termos esquisitos” por serem não-binárias, e a quantidade de pessoas que vai acusar uma pessoa não-binária de fetichizar a própria comunidade vai ser menor em comparação com alguém de fora da comunidade demonstrando tal atração, então a barreira é bem mais permeável para alguém não-binárie. Especialmente se a pessoa não-binária colocar seus desejos de relacionamentos com pessoas não-binárias como “um desejo puro” de ter um relacionamento com alguém que entenda a sua experiência, e não como a capacidade de achar sexy alguém do mesmo gênero que ela ou que tem outra identidade não-binária.
Para quem não sabe: eu sou assexual, e sei que muitas outras pessoas não-binárias estão no espectro assexual. Minha intenção não é colocar relacionamentos românticos (ou outros relacionados com laços emocionais) como menos relevantes ou “menos desconstruídos” do que relacionamentos sexuais. Acho que faz todo sentido que pessoas não-binárias busquem outras pessoas não-binárias para terem menos trabalho desconstruindo o exorsexismo de sues parceires, e não acho que ninguém é obrigade a demonstrar desejo sexual por alguém para que sua atração seja considerada legítima. Porém, acho relevante apontar o quanto pessoas de quaisquer gêneros podem fantasiar livremente sobre atos sexuais com mulheres e homens (trans ou cis), enquanto o desejo por pessoas não-binárias precisa ser uma extensão da atração por mulheres ou homens e/ou algo que precisa ser justificado por conta do sistema cissexista vigente.
Chasers embináriques?
Ok, pessoas cis que não estão indo atrás de relacionamentos com pessoas cisdissidentes não tendem a demonstrar atração por identidades não-binárias. Mas e as pessoas que objetificam corpos cisdissidentes; que estão indo especificamente atrás de quem é trans por não considerarem mulheres trans como mulheres ou homens trans como homens? Estas pessoas não se beneficiariam de ir atrás de alguém não-binárie por sua identidade fora do binário?
Pois então… até hoje, todos os relatos que vi de “atração por trans” eram de pessoas que (ao menos naquele momento se diziam) homens cis e hétero tão comprometidos com o heterossexismo que presumiam que “atração por trans” já seria, por padrão, apenas por mulheres trans/pessoas transfemininas. O desejo era puramente por aquele tipo de corpo idealizado nesse tipo de fetiche: uma mulher ou pessoa que se veste/comporta de forma feminina com pênis funcional.
Obviamente existem chasers que têm mais vergonha na cara do que o pessoal que chega relatando esse tipo de desejo em espaços trans. Há relatos de mulheres cis hétero indo atrás de homens trans porque “buscam um homem que entenda como é ser mulher”, há relatos de homens cis gays indo atrás de homens trans para “experimentar buceta”, há relatos de homens cis conservadores querendo coagir pessoas trans com útero e vagina a se “tornarem suas esposas” após engravidar tais pessoas.
No fim das contas, acredito que muites chasers possam se contentar com certos tipos de pessoas não-binárias. Afinal, suas objetificações dependem muito mais do corpo e da expressão de gênero do que de alguém sendo agênero e transmasculine ou homem trans, por exemplo. Ou seja, eu não percebo nenhuma preferência específica por pessoas não-binárias. Não que não possam existir, mas eu nunca tive contato com esse tipo de história.
Pessoas não-binárias em pornografia (incluindo textos eróticos)
A princípio, esta seria uma outra forma de encontrar atração e/ou fetiche por pessoas não-binárias. A prevalência de mulheres trans em pornografia é amplamente discutida, e também já me deparei com uma certa quantidade de textos ou vídeos erotizando homens trans. Nesta seção, eu não estou considerando somente vídeos no Pornhub ou Redgifs: eu também estou pensando sobre personagens não-bináries em histórias explícitas no AO3 ou Read Only Mind, em comunidades fetichistas no Tumblr e em HQs eróticas.
O mundo da pornografia na internet e fora dela é extremamente amplo, e, portanto, eu não tenho como afirmar que não existe determinado tipo de pornografia. Porém, até onde eu consegui chegar, a representação não-binária tende a ser de um entre tais tipos:
- Sociedades onde há alguma variação de mulher ou homem considerada sexualmente distinta do grupo cisnormativo de mulheres ou homens. Eu não contaria isso como representação não-binária em questão de atração por não-binaridade, porque tais grupos tendem a ser versões “mais atraentes” ou “menos atraentes” de mulheres ou homens por conta de genitália, espécie, raça e/ou expressão de gênero, com tal pornografia dando a impressão de ser direcionada a pessoas atraídas e/ou enojadas por determinados grupos de mulheres ou homens. Eu só acho interessante como há muita pornografia onde é normalizada a ideia de existirem mais de dois gêneros, ainda que estes sejam definidos de formas cissexistas (ocasionalmente racistas também) e sem que não-binaridade seja mencionada;
- Pessoas usando tags de “relacionamentos envolvendo personagens não-bináries” para classificar sexo com alienígenas sem sexo especificado, máquinas com inteligência artificial, plantas conscientes ou outros seres não humanos. Não é algo que eu tinha parado para pensar como representação não-binária, mas se duas mulheres usando um dildo duplo ainda conta somente como sexo entre mulheres, com certeza uma mulher sendo penetrada por tentáculos de ume alienígena que não fala ou é referide como homem poderia contar como sexo que não envolve duas pessoas binárias, ainda que eu não acredite que teratofilia (ou afins) necessariamente se traduza para atração ou fetiche por pessoas não-binárias reais;
- Interações entre blogs fetichistas onde na verdade o que conta é alguém não fazer parte da “categoria correta”. Por exemplo, blogs de supremacia transfeminina onde outros tipos de pessoas existem mas são caracterizados como inferiores, ou blogs de supremacia cis hétero onde qualquer pessoa trans supostamente “será convertida em cis para cumprir sua função biológica”. Estes blogs podem mencionar pessoas não-binárias e/ou que optam por referidas com conjuntos de linguagem não normativos, mas pessoas não-binárias não tendem a ser o foco principal ou único desses fetiches;
- Histórias que terminam em uma pessoa não-binária estereotipada (com cabelo curto e colorido, vagina e útero e que sente atração por mulheres) sendo convencida de que se submeter a um homem lhe dará mais prazer, que no final parecem ser mais um subtipo de ficção erótica onde homens conservadores são sexy e conseguem o que querem, humilhando e “convertendo” mulheres cis feministas no caminho, do que algo pensado especificamente acerca de um fetiche por pessoas não-binárias (até porque es mesmes autóries tendem a publicar muito mais histórias focadas em homens oprimindo mulheres);
- Textos eróticos geralmente curtos onde há, por acaso, uma pessoa não-binária. A não-binaridade não tende a ser o foco (ao contrário de histórias de “feminilização” ou de humilhação baseada em orientação, por exemplo), com tais histórias apenas representando um casal onde uma das pessoas é não-binária, uma pessoa não-binária sendo hipnotizada por um programa, ou qualquer outra coisa que também existe em pornografia voltada para pessoas duáricas, sáficas ou aquileanas. As pessoas não-binárias destas histórias não necessariamente possuem um certo tipo de corpo específico e geralmente são humanas, então esta é a categoria que parece representar melhor a existência não-binária.
Minha impressão final é que as histórias que podem ser interpretadas como “fetichização da não-binaridade” na verdade não colocam a não-binaridade como especificamente desejável, e sim como uma conclusão lógica sobre como poderiam ser classificados certos grupos de seres (que poderiam ser facilmente idealizados como binários) ou como um subtipo de pessoa trans/inconformista de gênero que “deve ser corrigida” e portanto é tratada como binária. Ou seja, a fetichização só funciona porque é possível idealizar quem é/poderia ser não-binárie como mulher ou homem.
Fora isso, sobram as histórias onde a não-binaridade se resume praticamente a uma troca de tratamento gramatical, onde eu não acho que o argumento da fetichização funciona.
Consigo pensar em um exemplo notável onde há um esforço maior para retratar seres que não são 100% mulheres ou 100% homens sem que elus sejam reduzides a “mulher/homem com característica tal”: histórias com Chakats, uma espécie inventada no contexto de pornografia furry e a origem dos pronomes shi/hir. Chakats são altersexo, embora a palavra não existisse em 1995: possuem pênis, vagina e seios, e há momentos que mencionam questões como discriminação ou não serem completamente homens ou mulheres. É possível considerar Chakats como uma fetichização de mulheres trans e/ou intersexo, porque minha impressão após ler um pouco das histórias é que, em geral, linguagem e papéis associades com mulheridade/feminilidade são utilizadas, com pênis e a possibilidade de fertilização sendo as únicas características que, dentro de tal universo, justificam uma caracterização “parcialmente masculina”, mas o fato de haverem tratamentos gramaticais diferentes me faz encarar Chakats ao menos como um esforço em sair do binário de gênero. Desta página de introdução:
Por conta dos títulos Sr., Sr(t)a., etc. serem inapropriados, Chakats geralmente são chamades pelo nome de sua espécie seguido de seu nome pessoal. Chakats conseguem um nome após nascerem que reflete suas características, físicas ou de personalidade, que pode mudar em qualquer ponto até chegarem na vida adulta. Daí podem escolher ficar com o nome que estão ou escolher um nome adulto novo, mas daquele ponto em diante, o nome é permanente.
Com certeza há bastante linguagem problemática nas histórias, desde o uso constante de palavras estigmatizadas contra pessoas intersexo até o uso de feminilidade/masculinidade para descrever partes do corpo. Agora, eu não sei se eu contaria isso como uma prova de que há chasers especificamente atrás de pessoas não-binárias: é um site furry provavelmente não muito conhecido fora desse meio sobre uma espécie quadrúpede que só tem um sexo. Eu colocaria Chakats como uma evidência de que é possível achar fluidez/mistura entre gêneros binários (ou feminilidade e masculinidade) atraente mesmo sem a afirmação de que tais seres são basicamente mulheres ou basicamente homens, e só.
Não ter uma identidade fetichizada é um privilégio?
Eu imagino que haverão pessoas que pensarão no que eu disse acima como uma confirmação de que a não-binaridade oferece um privilégio de ausência de fetichização, em comparação com outras identidades dissidentes de gênero, sexo/corporalidade ou orientação. Porém, não é bem assim:
- Pessoas não-binárias, por não serem cis, também são sujeitadas a “curiosidades” e “tentativas de conversão” cis: a questão não é que pessoas não-binárias não passam por isso, e sim que, no contexto de fetichização, não percebo nossas identidades não-binárias sendo tratadas de forma diferente do inconformismo de gênero de alguém cis ou da mulheridade ou hombridade trans.
- A ausência de desejo por pessoas não-binárias também é um problema. A mídia só tende a apresentar mulheres com traços apresentados como hiperfemininos e homens com traços apresentados como hipermasculinos como atraentes, o que diminui as opções de relacionamento de quem quer sair disso. Daí há a questão da não-binaridade não ser somente uma questão de aparência: ter um relacionamento com uma pessoa binária (especialmente se for cis, mas não necessariamente) pode significar ter o trabalho de ensinar o que é não-binaridade, falar que não é “só questão de gíria” parar de chamar uma pessoa não-binária de cara/mulher/etc. se ela se sente disfórica com isso, ensinar a pessoa (e/ou suas amizades) a usar um conjunto de linguagem que ela não consideraria “óbvio” para a pessoa não-binária ou para suas amizades não-binárias, discutir como disforia de gênero ou transição hormonal vai afetar os atos com os quais a pessoa não-binária se sente confortável e assim por diante.
A identidade não-binária tende a não ser atraente ou fetichizada, mas o apagamento não-binário é (em muitos casos). E isso também faz parte da opressão contra pessoas não-binárias.
Conclusão: atração por pessoas não-binárias provavelmente não é só um fetiche baseado em presunções equivocadas
A possibilidade de atração por pessoas não-binárias irá se desenvolver junto com a ideia de existência de pessoas não-binárias, especialmente levando em consideração suas diferentes identidades de gênero. Assim como pessoas se atraem por mulheres e/ou homens de forma exclusiva ou diferente por conta dos arquétipos que formam tais identidades, também é possível se atrair especificamente por pessoas aporagênero, caelgênero, gênero neutro ou assim por diante, mas a ausência de um padrão mental sobre como tais pessoas se parecem ou agem é, na minha opinião, o que prejudica a identificação de tais atrações por motivos que vão além dos políticos (“só quero namorar alguém com a mesma identidade que eu”) ou da rejeição específica a outros gêneros (“só não sinto atração por mulheres”).
Isso não significa que cada gênero possui ou deve possuir limites em relação a como podem parecer ou agir. Porém, há pessoas que gostariam de receber sexo oral de mulheres sem receber de homens, por exemplo: qual é a diferença aí? Questões como tamanho da boca, seios ou barba nem sempre serão relevantes, sendo outras subjetividades que fazem a diferença. É destas subjetividades que estou falando, e não de papéis de gênero.
Enfim, eu não acho que há evidências de que alguém desejando pessoas não-binárias provavelmente só dirá isso por motivos de estereótipos pornográficos. Nem pessoas não-binárias conseguem adotar termos que lhes contemplam direito, então tenho poucos motivos para acreditar que alguém deixará de se dizer hétero, gay ou lésbique para justificar ir atrás de pessoas não-binárias. Nem o pessoal atrás de mulheres ou homens trans porque acham que seus corpos vão representar “o melhor dos dois mundos” têm a inclinação de se dizer atraídas por não-binaridade, até porque só estão atrás de uma binaridade que consideram “tabu” e/ou “dois em um”.
Para quem quer um termo para atração exclusiva por pessoas não-binárias sem a carga de cétero, há o prefixo eneba. Alguém que quer um termo mais específico a pessoas fora do binário de gênero equivalente a gay/lésbique pode se dizer ceneliane. Pesquisar por não-binári na lista de orientações do Orientando irá mostrar vários outros termos que podem ser úteis para demonstrar uma atração que inclui pessoas não-binárias, como galdeique e tríxen. Também há vários termos juvélicos para descrever atrações por não-binaridade de formas que não são necessariamente exclusivas.
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